ISLAMISMO: POLÍTICA OU RELIGIÃO?

por Manuel Pechirra


Após o final da confrontação ideológica leste-oeste, o movimento islamita (denominado pelas mais variadas expressões – revivalismo, fundamentalismo, integrismo) ganhou uma posição política que não detinha até então. Esta situação não se deveu, apenas, à maior atenção dos meios de comunicação social sobre o fenómeno, mas igualmente porque ressurgiu como alternativa ao fracasso do modelo do nacionalismo-socialismo, no mundo muçulmano.

O movimento revivalista islâmico encontra as suas raízes no terreno religioso, mas igualmente em circunstâncias sociais que marcaram as sociedades muçulmanas do pós-independência.

Neste contexto, o Islão mantém-se como referência de base do movimento, mas a sua crescente instrumentalização política, começa a ser feita por um conjunto de teóricos da reinterpretação do Islão enquanto meio de intervenção social e política.

O monoteísmo, constitui o aspecto central do Islão, seguido pelo dogma de que Maomé foi o mensageiro ou o apóstolo de Deus e o último dos seus profetas.

Apesar do Islão, tal como o Cristianismo, ter sido, pela sua dimensão (a segunda maior religião mundial), objecto de vários cismas e seitas, estes dois aspectos são aceites por todos os crentes sem excepção.

O Corão, constituído por 114 capítulos (suras) recolhidos após a morte de Maomé, é a referência da religião islâmica, traduzindo a interpretação de Deus, da vida e da religião do profeta. Para os verdadeiros crentes, o Corão é a autoridade final em todos os assuntos que aborda, oferecendo a orientação aos mortais, não apenas sobre Deus e sobre a prática da fé, mas igualmente sobre todos os aspectos da vida pessoal e em comunidade, contendo a base do sistema social islâmico e o regime de conduta desde o nascimento até à morte.

Os deveres dos crentes muçulmanos estão divididos em cinco grandes categorias (deveres), chamados "Pilares do Islão".

O primeiro consiste na profissão de fé pela qual "não existe outro Deus que não Allah e Maomé que é o mensageiro de Deus". O segundo grande dever do crente é o ritual da prece, praticado, pelo menos, cinco vezes por dia, entre o nascer e o pôr do Sol.

A caridade é o terceiro pilar do Islão. O jejum, durante um mês, muçulmano do Ramadão (geralmente entre Dezembro e Janeiro do ano seguinte) é o quarto dever do crente.

O último dever do crente, respeita à peregrinação a Meca (haj), que deverá ter lugar, pelo menos, uma vez na vida.

Após a morte do Profeta, diversas dúvidas surgiram, não contempladas no Corão, resultando daí o aparecimento dos Hadiht, tratando-se de uma recolha das tradições de Maomé (ou a ele atribuídas) e dos seus seguidores mais próximos. Este conjunto de regras sociais está compilado em seis colectâneas de textos que formam algo semelhante a um código civil e que tem o nome de Sunna. Aqueles que respeitam e seguem os ensinamentos destes textos são denominados de muçulmanos no mundo.

Posteriormente os eruditos islâmicos completaram este conjunto de normas, reunindo-as num conjunto de regras sociais, políticas, familiares e religiosas e de interpretações teológicas que, em conjunto, formam a Charia (vulgarmente chamada de lei islâmica).

Um dos conceitos centrais da filosofia islâmica é a Rhama (perdão, sensibilidade, paz). O seu sucesso está intimamente ligado a este conceito, sobretudo a sua expansão a partir do século X.

De facto, apesar da sua liberdade de expressão, anteriormente em vigor, expressa por uma multiplicidade de divindades, a anarquia e violência marcavam, então, a Península Ibérica.

Foi a implantação do Islão, o factor que introduziu a ordem na região, entendida como a vitória da Rhama sobre a ignorância.

A compreensão do fenómeno do islamismo é complexa, não apenas para os membros de culturas estranhas, mas para os próprios muçulmanos. Não existe, ao contrário de algumas perspectivas, essencialmente anglo-saxónicas, uma concepção única da sociedade e do mundo, da economia e da política ou da cultura e da religião.

Algumas fórmulas teóricas procuram resumir a questão a um confronto civilizacional entre o Ocidente (cultura judaico-cristã) e o Oriente (representado pela tradição confuciana e islâmica).

Estas abordagens acabam por traduzir a ideia do "Ocidente contra o Resto" marginalizando o facto do próprio mundo islâmico debater e pensar sobre as razões inerentes à emergência e persistência da corrente islamita radical, encontrando-se dividido sobre a melhor forma de coexistência entre islão e política.

Em segundo lugar, partem do pressuposto do carácter monolítico do mundo islâmico, quando a realidade expressa a sua diversidade, assim como os diferentes contextos que desencadearam o desenvolvimento dos movimentos islâmicos politizados. Por outro lado, esquece-se de que as vozes do Islão encontram-se, hoje, presentes e são partes do chamado Ocidente, fruto da emigração sul-norte e leste-oeste, assim como o Ocidente está presente no mundo árabo-islâmico.

Compreender o Islão é, assim, compreender o mundo. Ultrapassar esta barreira será talvez o maior desafio para se eliminar o fantasma do "choque de civilizações" que alimenta o radicalismo e a tolerância, tanto islâmica como em todas as restantes culturas que compõem a "aldeia global".

A conquista deste conhecimento permitirá concluir, de forma serena, que os pontos em comum entre o islão e o cristianismo são mais relevantes que os pontos de discórdia e que ambos elegem a Paz como objectivo supremo da existência humana.

 

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